Por que eu não assisto ao Big Brother Brasil?

janeiro 23, 2012 2 Comments »

Há dias reflito se deveria ou não comentar sobre o Big Brother Brasil aqui no Medidas de Fé. O quê escrever aos leitores que lhes provoque uma melhor compreensão sobre os recentes fatos que movimentaram de forma abrupta todos meios de comunicação de massa, acabando por pautar as conversas em casa, no trabalho e nas redes sociais?

Seria injusto não mencionar duas pessoas muito importantes que exerceram papéis decisivos nos últimos 18 meses. Karina Gomes Barbosa e Lanier Rosa são as grandes protagonistas dessa meditação. A primeira, por ter sido minha professora no curso de jornalismo e colaborado para uma melhor compreensão e desenvoltura do espírito crítico. A segunda, por ter sido colega no mesmo período e por ser uma das minhas melhores amigas que me ensinou a amar com mais legitimidade os diferentes de mim.

Na infância fui ensinado que o padre e a professora do pré-escolar eram as figuras mais importantes depois dos meus pais. Causava-me espanto imaginar que um desses fizesse qualquer reclamação sobre o meu comportamento. Fazer uma lição escolar sempre foi como atender ao pedido de alguém muito importante a quem  deveria reverenciar e obedecer. E isso foi fundamental para aprender muitas coisas em todas as etapas da minha educação.

Em suas aulas, a professora Karina ensinava a criticar com um humanismo perdido até mesmo nas paróquias do Brasil e a perceber que o importante não era apenas o objeto em questão, mas a pessoa envolvida em quaisquer casos midiaticamente vultuosos. Edmar, não seja tão radical foi uma observação/correção/pedido que me fez olhar o meu semelhante e perceber que às vezes detesto nele exatamente o que não suporto em mim.

Enquanto eu me tornava bacharel, a Lanier cuidava para que eu não me transformasse em mais um indiferente aos diferentes. Ela me ensinou a aplicar a doutrina religiosa aprendida em outras épocas e, por causa desse amor prático, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo ganhava vida quando eu me dedicava a abraçar àqueles que a sociedade e a religiosidade mal formada queriam esmagar e marginalizar. Fiz amigos e amigas, uns usuários de drogas, outros homossexuais, outros ateus e outros assim, muito parecidos comigo.

Despretensiosamente, Karina e Lanier mudaram o meu jeito de ser.

Como profissional de comunicação aprendi que ainda que não gostasse de alguma coisa era um dever propor-me a compreendê-la para intermediar a discussão na sociedade ou mesmo relatar com mais fidedignidade quaisquer fatos. E a Karina me cobrava isso em cada reflexão proposta em sala de aula.

Indo ao que interessa…

Por que eu não assisto o Big Brother Brasil?

Porque eu não gosto de reality shows.

E por que eu não gosto de reality shows?

Boa pergunta. Não sei responder como não saberia se me perguntassem por qual razão gosto tanto de futebol.  O Big Brother poderia acrescentar-me em muita coisa, mas eu não gosto. Gosto de papear com meus pais, pessoas sem o mínimo grau de instrução e que nunca leram um livro na vida. Gosto de assistir a shows, de canto gregoriano, de filmes épicos, de documentários.

De reality shows, não.

Numa ida ao restaurante, caminhando sob o sol das 13h, o meu amigo Ezequias Caetano pediu que escrevesse sobre o Big Brother Brasil. De início resisti, mas fui duplamente seduzido pela proposta, pois além de amigo trata-se de um leitor do blog que desejava conhecer o meu ponto de vista. Cheguei a dizer-lhe que esse post poderia custar caro ao blog Medidas de Fé a ponto de perder alguma credibilidade conquistada junto aos religiosos e religiosas que o acompanham.

Decidi fazê-lo mesmo assim. Eu tinha motivos de sobra para isso e não podia silenciar diante do tribunal moralista que apresenta o seguinte caso:

Em 2012, um rapaz participante de BBB acusado de estupro foi crucificado e execrado publicamente. De outro lado, piadas e músicas de péssimo gosto fizeram sucesso nas redes sociais ao debocharem da situação daquela moça que teria sido vítima da suposta violência.

Particularmente acho que ele errou. Mas não tenho o direito de condená-lo. Não sou o seu juíz.

Pergunto aos que me leem agora se nunca, em hipótese alguma, ouviram falar de casos semelhantes ocorridos?

E é aqui que vou mexer numa ferida muito dolorida e remediada há séculos com placebos de virtude.

Inúmeras vezes fui convidado para comemorações em casas de pessoas religiosas. E não vi nada de diferente das festas que ocorrem no Big Brother Brasil. Música secular como o funk proibidão, álcool liberado para menores de idade, promiscuidade e mais, muito mais. No outro dia, na missa ou no encontro da igreja, todos rezando e louvando ao Senhor.

Que tal falar das famosas barraquinhas paroquiais que vendem bebidas alcoólicas, executam músicas seculares com conteúdo menos contundentes e que promovem a ‘cadeia do amor’?

Cadeia do amor?

Pergunte a qualquer católico contemporâneo sobre o que seria a tal ‘cadeia do amor.

Tudo isso para arrecadar fundos para as obras paroquiais.

O que tem de errado nisso? Deus perdoa as nossas culpas! Ele é o Senhor das misericórdias!

O que tem de errado nisso é que quando o pecado do outro é descoberto, somos nós os religiosos a cobrir-nos com um manto de hipocrisia, esquecendo-nos dos nossos pecados para em seguida apedrejar os pecadores caídos ao chão da humilhação pública. Condenamos os participantes do programa e esquecemos de analisar as nossas culpas. Estamos preocupados com o cisco no olho do outro enquanto há uma trava impedindo de que vejamos os nossos próprios crimes.

Uma vez denunciando o desrespeito às leis de Deus, o que diria Jesus? que a lei está equivocada?

Não!

Então?

“Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”(Jo 8,7)

Santo Agostinho, o grande bispo de Hipona, era um homem promíscuo. Mas encontrou o amor nas correções de Santo Ambrósio. São Francisco de Assis descobriu sua riqueza quando trocou o espírito avarento por um coração capaz de amar os pobres. E quem foram esses homens?

Santo Agostinho, Santo Ambrósio e São Francisco de Assis foram homens limitados e que se admitiam pecadores. De tão confessos, virtuosos tornaram-se. De tão humanos, divinaram-se pelo amor da cruz.

E eu que sou um blogueiro católico, quê sou? E o quê são os homens e mulheres confinados dentro daquela casa? E o quê são os que acusam os pecados alheios?

O Big Brother Brasil não é uma chuva repentina. Trata-se de um programa de TV com horário de exibição determinado e censura divulgada. Minha campanha não é por um Brasil sem Big Brother. Minha campanha é por um Brasil sem hipocrisia. Não convém que sua família o assista? Tome as suas providências.

Não é o ódio e o vilipêndio que mudarão o comportamento humano. Podemos discordar dos escândalos lá ocorridos e denunciá-los apoiados na maior das verdades, mas nunca podemos deixar de lado um espírito humilde que permita reconhecer-nos tão pobres e tão pecadores quanto qualquer um dos que lá estão confinados.

O amor precede a correção. Obrigado, Karina.

E corrigir é amar em ato. Obrigado, Lanier.

PS: Texto publicado originalmente em 23 de janeiro de 2012 às 10:30 – adaptado para esta oportunidade

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2 Comentários

  1. Ricardo Brandão 23 de janeiro de 2012 at 13:02 - Reply

    Valendo esse.
    Querido Edmar,
    sabes o quanto te amo e te quero bem. Cada palavra sua é um balsamo para o meu dia. Leio,relei,medido e contemplo cara parágrafo seu. Porém, isso não quer dizer que tenho que baixar minha cabeça e concordar com suas reflexões. Sobre seu texto que aqui comento, em parte concordo com você. Confesso que ultimamente tenho me angustiado com uma sociedade falsa e moralista. Já ví coisas mais graves pela tv, morte,fome, verdadeiro cáus em algum continente distânte e as vezes até mesmo próximo a minha casa, e o que tenho feito? Rezado? tambem… mais será o suficiênte? Acho que não. Não sou do tempo “e nem pretendo ser”, dos fins justificam os meios. Digo isso em relação as bebidas e “cadeias do amor”. Sobre as festas, muitas acontecem na minha casa, e de longe não passa a promiscuidade da tv. E olha que não tem cameras para mostrar..rs.Sim, a emissora divulga o horário a adequação de idade e etc. mas sou obrigado a aceitar? No meu tempo quem quisesse ver promiscuidade ia a “casa da luz vermelha” ou inferninho como se diria antigamente. Que a emissora ou quem quiser colocar no ar tanta falta de criatividade, que disponibilize o sinal em uma estação paga, se quero ver pago e pronto! Dizem que o Brasil está saindo da miséria, será? A maior diversão do brasileiro ainda é a tv, muitas famílias ainda se reunem em frete a telinha para assistir um jornal, uma novela, ver um bom filme e…o BBB? Por que querem ou não tem opção? outro dia ví no face o comentário de um apresentador de jornal no SBT. Ele dizia que estamos ficando menos inteligêntes vendo BBB ou rindo com a tal de Luíza, e no final, o dito cujo encerra o jornalismo “padrão” com a máxima:” Fique agora com o programa do Ratinho”. Eu mereço, é o sujo falando do mal lavado. O problema não é a emissora ou seu conteúdo, o problema somos nós que damos audiência a atração errada, quando na verdade deveriamos sintonizar nossos corações em Jesus. Abraços.

    • Edmar Araújo 23 de janeiro de 2012 at 13:07 - Reply

      E que bom que és livre para opinar aqui, Ricardo. Como amigo, fico feliz! Como cristão, duplamente honrado e como colega de profissão, creio que seja a discussão sadia, livre de cadeias impositivas, o caminho para uma melhor compreensão da vida. Concordo com seus dizeres aqui…grande abraço!

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