Laudato Si’ – sobre o cuidado da Casa Comum – do 17 ao 22

A leitura avançou e por isso dedico mais um post ao texto da carta encíclica Laudato Si’ – sobre o cuidado da Casa Comum, do número 17 ao 22. Sim, eu sei que é pouco, mas tenho meditado com paciência o que diz o Santo Padre.

Leitores amigos do blog Medidas de Fé,

A leitura avançou e por isso dedico mais um post ao texto da carta encíclica Laudato Si’ – sobre o cuidado da Casa Comum, do número 17 ao 22. Sim, eu sei que é pouco, mas tenho meditado com paciência o que diz o Santo Padre.

Caso alguém não tenha lido minha primeira exposição sobre a carta, basta clicar aqui.

Ao iniciar o capítulo I, o papa identifica a necessidade de a fé e a razão estarem dispostas ao enfrentamento para aquilo que é novo e alarmante. O cristianismo pode colaborar e trazer novos motes, mas para isso, antes de mais nada, Francisco convida  a “considerar o que está a acontecer à nossa casa comum“. (LAUDATO SI’, 17)

A primeira consideração do Papa Francisco é lançada sobre o estilo de vida hodierno, em constante e acelerada mutação. Soma-se a isso rotinas incruentas às quais o ser humano é muitas vezes submetido. Sua Santidade não descarta que toda mudança social é parte da execução das sociedades. No entanto, para o papa há uma aceleração que contrapõe aquilo que é natural: a ação humana confronta-se radicalmente contra a “lentidão natural da evolução biológica” (LAUDATO SI’, 18).

Se esta mudança confrontante tivesse, ainda que ulteriormente, o desejo de ir ao encontro do bem comum e do desenvolvimento, talvez merecesse menos atenção no texto.  “A mudança é algo desejável, mas torna-se preocupante quando se transforma em deterioração do mundo e da qualidade de vida de grande parte da humanidade(LAUDATO SI’, 18).

É preciso uma dolorosa tomada de consciência (LAUDATO SI’, 19) que permita apropriar-se pessoalmente dos males que afligem a humanidade neste contexto de Casa Comum. Houve, sem dúvida, grande sensibilização de vários setores da sociedade civil organizada, mas ainda não configura resposta suficiente para os problemas elencados.

É preciso que todos os cristãos ousem “transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar”. (LAUDATO SI’, 19)

Os mais pobres sempre serão os mais prejudicados por toda ação que não vise o bem da Casa Comum. A poluição, uma delas, é responsável por muitas mortes, inclusive mortes precoces. Vivemos, segundo Francisco, numa sociedade que crê demais que toda solução será encontrada na tecnologia com interesses comerciais e que é, simultaneamente, afetada pela poluição “causada pelo transporte, pelos fumos da indústria, pelas descargas de substâncias que contribuem para a acidificação do solo e da água, pelos fertilizantes, insecticidas, fungicidas, pesticidas e agro-tóxicos em geral. Na realidade a tecnologia, que, ligada à finança, pretende ser a única solução dos problemas, é incapaz de ver o mistério das múltiplas relações que existem entre as coisas e, por isso, às vezes resolve um problema criando outros” (LAUDATO SI’, 20)

Há também, prossegue o papa, uma quantidade não negligenciável de poluição que emana de resíduos, “muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, electrónicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioactivos”  (LAUDATO SI’, 21), fazendo com que a terra torne-se uma grande lata de detritos, um espaço imenso para descarte. Medidas são tomadas de modo remediativo, ou seja, quando os impactos já demonstram determinada irreversibilidade.

Essas mazelas sociais são oriundas de uma cultura que torna efêmeras demais todas as coisas. É a cultura do descarte que produz lixo, poluição, doenças e mais pobreza em todo o mundo. A isso, sistema industrial ultracapitalista, Francisco contrapõe com o bom exemplo dos ecossistemas: “as plantas sintetizam substâncias nutritivas que alimentam os herbívoros; estes, por sua vez, alimentam os carnívoros que fornecem significativas quantidades de resíduos orgânicos, que dão origem a uma nova geração de vegetais”. (LAUDATO SI’, 22).

A tecnologia, tão louvada nos dias atuais, ainda não empreendeu esforços suficientes para que tudo o que for produzido seja reaproveitado, permanecendo a maior parte da produção industrial nociva ao mundo. “A resolução desta questão seria uma maneira de contrastar a cultura do descarte que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido são ainda muito escassos” (LAUDATO SI’, 22)

Até o próximo post.

Ainda sobre o Enem: São Tomás de Aquino foi tema e ninguém viu?

Afinal, não podemos também elogiar o Enem por trazer à baila um autor histórico tão importante como foi São Tomás de Aquino?

Amigos leitores,

Quando eu falo que existe uma espécie de agenda programada no cristianismo brasileiro, especialmente nas fileiras católicas, amigos mais próximos me acusam de suspeitoso. Mesmo tentando ser o mais transparente possível, até de delirante eu já fui chamado.

Estava em uma pequena atividade da Igreja, no sábado, e um dos jovens, que havia me visto palestrar várias vezes, aproximou-se e disse: “lembrei de você, Edmar, porque li sobre São Tomás de Aquino na prova do Enem”.

Vejamos o trecho:

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Que Simone de Beauvoir e o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio – Enem foram objetos até de desavença, todos estamos cientes.

Mas, por qual razão a presença de um trecho de texto de São Tomás de Aquino, um dos maiores santos do catolicismo e grande referência filosófica nas universidades, não foi notada ou mesmo comentada com tanto entusiasmo?

Acho que tenho a resposta: o santo, doutor angélico e teólogo, não contrapõe o espírito daqueles que estão ‘preocupados’ com a educação de nossos jovens. Em todos os anos em que estudei em escola pública nunca, jamais, em hipótese alguma, qualquer professor tentou introduzir o pensamento de São Tomás de Aquino quer fosse por um texto, por um livro ou mesmo por citações.

Fico feliz, verdadeiramente contente, que milhões de jovens brasileiros possam ter lido um pequeno trecho de um dos maiores pensadores da tradição católica. São Tomás de Aquino, para os que não sabem, foi revolucionário ao conceber as ideias de Aristóteles no seio do cristianismo. Por causa disso, foi duramente criticado e acusado de contrapor a onipotência de Deus com a argumentação filosófica.

E fico triste que tenhamos tanto binarismo-moral no Brasil. Afinal, não podemos também elogiar o Enem por trazer à baila um autor histórico tão importante como foi São Tomás de Aquino?

É claro que o santo não é o dono da verdade.

Já sofreu contestações de outros veneráveis filósofos, como  o magnífico Bertrand Russel, que não o considerava um pensador do mesmo nível daqueles aclamados nas principais tradições filosóficas, ou seja, para Russel, Aquino era um produtor de filosofia sem aporia.

Entendo que a prova do Enem tenha coisas a melhorar, muitas, mas ela também tem seus pontos positivos. Nos dias atuais, quando milhões de jovens têm a chance de ler trecho de texto do grande Doctor Communis, coisa que as forças católicas do Brasil nunca conseguiram – pois preferem reproduzir Leonardo Boff e coisas do gênero – vejo com bons olhos.

O Enem não é a melhor coisa do mundo, mas está longe de ser o que se pretende impingir sobre ele.

Simone causou no Enem: era mesmo pra tudo isso?

Que contribuição o cristianismo, crença professada por este blogueiro, poderia ofertar neste momento além das já pesadas críticas aos temas do Enem?

Prezados leitores,

De volta com um texto inédito aqui no blog. Além da crise financeira pela qual todos estamos passando no Brasil, estou particularmente vivenciando uma crise de tempo e inspiração – não necessariamente nesta ordem. Estava em casa, assistindo House of Cards, minha série favorita, quando eclodiram nos feeds das redes sociais as divergências de opinião sobre o Exame Nacional do Ensino Médio – Enem.

No olho do furação digital estavam Simone de Beauvoir, ícone do feminismo na França no século passado, e o tema da redação do exame que foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

Não tenho nenhum conhecimento sobre Simone de Beauvoir além de raras citações que li e ouvi em tempos acadêmicos. Confesso que a primeira impressão com o trecho de seu texto em questão do Enem me deixou bem desconfiado, mas tive a paciência de reler algumas vezes para tentar compreender o que ela queria dizer.

Vejamos:

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O trecho é polêmico. Resolvi, então, recorrer ao benefício da dúvida e tentar interpretar com mais generosidade o que ela queria dizer. Entendi que ‘mulher’, na mais-valia da palavra, representa um papel estabelecido pelos poderes socialmente constituídos no lar, no trabalho, nas instituições de ensino, na religião, enfim, pelas forças que colaboraram na moldura do trato histórico que dispensou-se ao feminino.

Concordar ou discordar da escritora é direito de cada um, mas é preciso saber fazê-lo com menos prepotência e mais honestidade intelectual. Embora tenha tentado entendê-la, discordo de seu discurso, o que não me torna um machista. Se concordasse com ela, isso não me tornaria, tampouco, um feminista.

Sobre o tema da redação, achei válido e atual. A violência contra a mulher é algo inadmissível, intolerável e repugnante. Requer de todos nós uma postura mais sólida que aceite menos a maldade simbólica exercida contra a sacralidade feminina.

E que contribuição o cristianismo, crença professada por este blogueiro, poderia ofertar neste momento além das já pesadas críticas aos temas do Enem?

Acho que a primeira delas é oferecer o Cristo legítimo ao mundo, capaz da mais profunda fraternidade e diálogo.

O antigo testamento é marcado pelos sinais de Deus revelados por homens. No novo, quando Jesus nos é dado, é uma mulher quem porta a salvação. Sim, Maria é a porta de entrada do céu na face da terra. Se a tradição judaica nos mostrou Eva, caída e condenada pelo pecado cometido em pleno paraíso, a nova mensagem da religião que surgia nos mostra outra mulher, Maria, como erguida e aclamada por todas as gerações como ‘bem-aventurada’. (Evangelho de São Lucas, capítulo 1, versículo 48)

Jesus, por sua vez, condenou o machismo que objetiva o corpo da mulher.

“Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração” (Evangelho de São Mateus, capítulo 5, versículo 28)

Ele também acolheu com bondade a oferta carinhosa de uma mulher, que levou os pés e os enxugou com o cabelo.

“Jesus ouviu-os e disse-lhes: Por que molestais esta mulher? É uma ação boa o que ela me fez.” (Evangelho de São Mateus, capítulo 26, versículo 10)

“E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos”. (Evangelho de São Lucas, capítulo 7, versículo 44) 

O evangelho também traz em seu texto a exaltação da mulher por outras mulheres.

“Enquanto ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!” (Evangelho de São Lucas, capítulo 11, versículo 27)

Jesus também engajou-se na luta pela vida e direito das mulheres.

“A essas palavras, sentindo-se acusados pela sua própria consciência, eles se foram retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante dele. Então ele se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e não voltes a pecar.” Evangelho de São João, capítulo 8, versículos 8, 9, 10 e 11) 

Também foram as mulheres o grande exemplo de fé e coragem durante a crucificação de Jesus.

“Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena” (Evangelho de São João, capítulo 19, versículo 25)

E foram as mulheres quem testemunharam, primeiro, a ressurreição.

“Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo” (Evangelho de São Mateus, capítulo 28, versículo 1)

A maturidade da fé que o cristianismo desenvolveu tem sua gênese na figura da mulher, pois foi ela quem reconheceu a ressurreição, antes dos varões.

“Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado” (Evangelho de São João, capítulo 20, versículo 18)

Eu poderia incluir muitas referências bíblicas sobre a importância da mulher para a sociedade e para o cristianismo, mas creio que as mencionadas acima já ilustram bem o que pretendo com este texto: dar a Deus o que é de Deus e a mulher o que lhe é merecido: amor, respeito e dignidade.

Por que você não se sente perdoado?

Que tal pensar a respeito?

Consciência pesada, excesso de escrúpulo e sentimentos de culpa e inferioridade abatem a alma e o coração das pessoas que não se sentem perdoadas. Talvez você seja uma delas e talvez não saiba a razão que lhe faz sentir-se tão mal consigo mesmo.

Seja para quem o solicita, seja para quem é solicitado, o perdão sempre será uma atitude generosa. Quantas vezes você foi a uma igreja e pediu perdão a Deus pelos seus pecados, ou no quarto, em oração, sentiu que tem que desculpar-se com o mundo, com as pessoas e com o seu próprio eu?

Esse sentimento de querer expiar-se de culpas mediante a solicitação do perdão é benéfico e produz a boa consciência, podendo tornar muito mais generoso o seu coração. E por que você não se sente perdoado?

Responda com sinceridade: quando alguém erra com você e “pisa nos seus calos”, qual é a sua atitude? Você está pronto para perdoar aos que ama, aos que convivem e se importam com você?  Se não conseguiu perdoar quem lhe feriu, também não se sentirá perdoado. O sentimento de culpa é exatamente um reflexo da sua incapacidade de abrir mão do que sente para libertar o outro de suas culpas.

Deixe o passado onde ele está, aproveite o dia de hoje para perdoar quem lhe fez algum mal e redescubra o sentido de estar livre de qualquer sentimento de impotência. Consciência leve não tem nada a ver com irresponsabilidade e indiferença. Consciência leve é o ato de esvaziar-se do que lhe causa alguma dor.

Comece já.

“Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai Celestial vos perdoará os pecados, mas se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, tampouco vosso Pai Celestial vos perdoará os pecados.” (Mateus, 6, 14-15.)

 

A ira de um anjo

O que o abuso sexual pode causar em crianças?

O que o abuso sexual pode causar em crianças?

Após 27 minutos de documentário, minha visão de mundo alterou-se profundamente. Não sei se para melhor ou para pior. Espero que você possa assistir ao vídeo e sensibilizar-se com o caso de Beth.

O que é ser de Deus?

Arrepender-se e crer em Jesus. Crer em Jesus e arrepender-se. Isso é conversão, isso é ser de Deus.

Reflexão Quaresmal – Lucas 11,29-32

Nesta pequena reflexão, há um chamado à crença e à conversão genuínas. Arrepender-se é um sinal de crença. Crer é um sinal de arrependimento. Se cremos e nos arrependemos de nossos pecados, perdoamos, somos perdoados e amamos, mesmo não sendo amados. A humanidade é capaz de contemplar esse Cristo ao arrepender-se de seus pecados e, imitando os passos de tantos homens e mulheres de fé, crer no Deus capaz de realizar os incapazes de nossos idos.

A alma humana realiza seus movimentos que comunicam a Deus o desejo de estar com Ele e nunca apartar-se desta beatitude máxima da existência. O Deus, todo ato e todo amor, capaz de comunicar-nos seu Shalom, seu prometido, seu Jesus, humano Deus que diviniza nossa convivência com sua presença eterna, verbal e encarnada.

Arrepender-se e crer em Jesus. Crer em Jesus e arrepender-se. Isso é conversão, isso é ser de Deus.

*Publicado em 20 fev, 2013 às 00:00